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Viviam o dia a dia, mas felizes.</p>\n<p>Observei as crianças, com o rosto sujo, os narizes escorrendo, meio vestidas, porque os bebês não tinham nem calcinhas, nem aquelas calças plásticas, Pampers, não sei como chamam em cada país, fraldas.</p>\n<p>Então perguntei por que andavam assim com tanto frio (estávamos a quatro mil metros de altitude, em um pequeno povoado).</p>\n<p>E me responderam: — Porque as mães não têm nada para poder lavar as roupas.</p>\n<p>E eu compreendi.</p>\n<p>Mas as crianças sorriam e as mães também.</p>\n<p>Encontrei anciãos com muita sabedoria, mas havia um muito especial. Então disse ao nosso guia, Kesy, um rapaz do Nepal, de Katmandu, que para conseguir comida dizia: — Sou guia.</p>\n<p>Na verdade não era, mas nos mostrou tudo o que precisávamos ver. Era muito jovem. Éramos o primeiro grupo da Enseñanza que viajava ao Nepal e éramos felizes.</p>\n<p>Minha amada Cristina, envio-te todo o meu amor, porque eras a que mais tinha medo do tigre.</p>\n<p>Onde vivíamos, a quatro mil metros, repito, havia tigres que vinham e comiam os aldeões. Era uma pequena aldeia e eles tinham um cachorro que os avisava quando o tigre se aproximava; então fechavam as portas e assim se protegiam.</p>\n<p>Mas acontece que minha amada Cristina, que hoje está na Luz, começou a ouvir o cachorro e disse: — Esse cachorro não me deixa dormir, vou fazê-lo calar.</p>\n<p>Pegou então um banco de madeira muito pesado, jogou no cachorro… e o matou.</p>\n<p>Era de um terceiro andar, e o pobre cachorrinho vinha avisar que o tigre estava chegando. E ela disse: — Finalmente o cachorro se calou, agora podemos dormir.</p>\n<p>No dia seguinte, os aldeões choravam e fizeram uma cerimônia para o cachorro, porque era ele quem os avisava quando o tigre vinha, já que o tigre comia os animais e tudo aquilo que encontrava.</p>\n<p>Era uma aldeia muito pobre, como sempre existem em todos os lugares do planeta.</p>\n<p>Então, no dia seguinte, olhamos todos para minha amada Cristina e dissemos: — O que você fez?!</p>\n<p>— Ele me incomodava para dormir.</p>\n<p>— E agora, se o tigre vier e te comer?</p>\n<p>Como ela era muito medrosa, correu até a cidade de Katmandu para procurar outro cachorro e o trouxe, e assim os aldeões ficaram tranquilos.</p>\n<p>Mas aquele sábio da aldeia me intrigava muito. Era muito velhinho, todo enrugado, com seu chapéuzinho, que agora não lembro o nome. Um chapéu em forma de barco, muito magrinho.</p>\n<p>Perguntei: — Como se chama o seu chapéu?</p>\n<p>E ele respondeu: — Meu chapéu… vou procurar o nome.</p>\n<p>Depois disse: — Ele tem a forma do mapa do Nepal, por isso todos nós o usamos.</p>\n<p>Gostei desse detalhe.</p>\n<p>Então ele veio até mim e perguntou: — Posso abençoá-los?</p>\n<p>— Claro que sim!</p>\n<p>— Então amanhã irei até a vossa casa, abençoarei a casa e também vocês.</p>\n<p>Eu estava a pessoa mais feliz do mundo! Ele iria nos abençoar, porque aquele senhor era como um rabino, um pastor, um sacerdote, um grande homem religioso.</p>\n<p>E no dia seguinte, às seis da manhã, ele já estava diante da nossa porta.</p>\n<p>Nas montanhas do Nepal o sol nasce muito cedo. Ele estava lá, junto com toda a aldeia.</p>\n<p>Saímos e lhes oferecemos o pouco que tínhamos: algumas bolachas e uma tisana. Ele ficou muito contente, mas disse: — Antes preciso fazer a tika, realizar a bênção.</p>\n<p>Sentou-se no chão, limpou o solo, desenhou um círculo, colocou arroz, um círculo vermelho e outro amarelo. Levava um pequeno balde com água e um galho de árvore. Depois tinha outro recipiente com arroz e pós amarelos, que misturava formando uma pasta.</p>\n<p>Depois, quem o ajudava lhe entregava uma espécie de jarra. Todos estávamos sentados em posição de lótus, e ele veio até cada um de nós e colocou uma pequena bolinha daquela mistura amarela no chakra seis, na testa. Aquilo era a bênção para cada um.</p>\n<p>Fizemos a reverência, que significa agradecer, e depois ele também abençoou a casa.</p>\n<p>Por último, apresentou-nos a jarra para beber, mas o líquido era amarelado, meio marrom, muito escuro.</p>\n<p>Perguntei: — Desculpe, mestre… (porque eu não sabia como chamá-lo: senhor, padre, rabino ou emir). O que há aí dentro? É um remédio? Uma tisana?</p>\n<p>E ele respondeu: — Não, é melhor ainda. Isto é medicinal.</p>\n<p>— Mas o que é? Onde recolhem?</p>\n<p>— Ah, é muito simples. É o xixi da vaca. Quando a vaca urina, nós recolhemos e bebemos, porque é um medicamento muito bom.</p>\n<p>Minhas sementes, minhas amadas sementes! Posso fazer o que vocês quiserem, mas aquilo eu não bebi! Não bebi!</p>\n<p>E claro, o grupo fez o mesmo que eu. Não tocamos naquilo. Eles nos olharam muito estranhamente e disseram: — Isto vem de Deus.</p>\n<p>E eu respondi: — Senhor, desculpe-nos, somos muito ignorantes, mas preferimos que os senhores tomem.</p>\n<p>E eles beberam.</p>\n<p>Nada lhes aconteceu, mas nós nos livramos de algo.</p>\n<p>Então continuei conversando e perguntei:</p>\n<p>— Qual é a sua filosofia de vida?</p>\n<p>A resposta era simples: — Trabalhar e fazer o bem, trabalhar e fazer o bem.</p>\n<p>— Mas existem pessoas muito más — respondi.</p>\n<p>— As pessoas más se afastam quando você possui bons sentimentos e bons pensamentos.</p>\n<p>— E se lhe fizerem mal?</p>\n<p>— Você sabe o que fez em outra vida?</p>\n<p>— Não.</p>\n<p>— Então não tenha medo. Você tem sua proteção. Somos filhos de Deus.</p>\n<p>Falava muito pouco, mas com muita profundidade.</p>\n<p>Disse: — Eu nunca minto, porque não sou juiz. Mas temos alguém maior que nos vê, nos julga e sabe o que fazemos. Ele não nos castiga; somos nós que não obedecemos.</p>\n<p>Continuei perguntando:</p>\n<p>— O senhor faz dieta? Faz jejum? O que faz?</p>\n<p>Ele respondeu: — Apenas medito. Não posso jejuar porque temos pouca comida, mas ajudo quem necessita e sei que lá em cima nunca me faltará nem comida nem o necessário para viver.</p>\n<p>Quis me ler livros dos Vedas, escritos em sânscrito. Era hinduísta. Mas ele não falava inglês e eu tampouco, então continuou dizendo:</p>\n<p>— Nós, hinduístas, os da Índia, do Nepal, recebemos nossa educação dos pais e dos religiosos, e existe um princípio: nunca cortar o cabelo. O cabelo é o mais precioso que temos.</p>\n<p>Eu respondi: — Não pode ser, eu corto o meu.</p>\n<p>Ele disse: — O homem nunca corta.</p>\n<p>— A mulher, como você vê, aqui todas têm cabelo comprido.</p>\n<p>— Não compreendo — respondi.</p>\n<p>— Vou explicar: o cabelo para a mulher é sua beleza, mas também sua riqueza. Se um dia ela não tiver o que comer, o cabelo sempre terá valor.</p>\n<p>— É a beleza e também aquilo que diferencia do homem. Nós homens temos o cabelo comprido desde que nascemos.</p>\n<p>E eu disse: — Não posso acreditar.</p>\n<p>— Sim.</p>\n<p>Então seu sobrinho lhe disse: — Tio, mostre para ela.</p>\n<p>E ele respondeu: — É proibido. Não posso mostrar. Sou religioso.</p>\n<p>E eu disse: — Pode confiar plenamente, porque trabalhamos para o Universo e estamos aqui realizando um trabalho espiritual.</p>\n<p>Então ele respondeu: — Pela primeira vez farei uma exceção.</p>\n<p>Tirou o gorro e começou a soltar uma trança. A trança saía, saía, saía… não terminava nunca. Chegou até o chão. Tinha mais de dois metros.</p>\n<p>Ficamos assustadas.</p>\n<p>— O senhor nunca cortou?</p>\n<p>— Não.</p>\n<p>— Por quê? Reverendo, desculpe minha ousadia, mas por quê?</p>\n<p>E ele explicou: — O cabelo são antenas que possuímos, e essas antenas se conectam com o Universo e com os Seres mais elevados. Esses Seres de Luz nos transmitem luz, espiritualidade, amor, compaixão e ajudam-nos a servir o próximo.</p>\n<p>Fiquei sem palavras.</p>\n<p>— Por isso ainda tenho o cabelo desde que nasci, e posso ir abençoar e ajudar.</p>\n<p>Com muita delicadeza, recolheu novamente a trança, enrolou-a como um círculo, colocou-a dentro do gorro e o vestiu novamente.</p>\n<p>Ajoelhei-me, beijei seus pés e agradeci.</p>\n<p>E todo o meu grupo fez uma grande reverência pelo nobre gesto que ele realizou diante de estrangeiros, sem que pertencêssemos à sua religião. Foi muito nobre.</p>\n<p>Assim já sabem.</p>\n<p>Na Índia, o cabelo comprido é sagrado. Quando alguém raspa a cabeça, aqui no Ocidente chamamos isso de castração, mudança de vida ou começar uma nova vida, deixar o passado para trás e iniciar algo novo.</p>\n<p>Para nós, ocidentais, cortar o cabelo não tem importância. Para os hinduístas e taoístas, como os samurais do Japão que vocês certamente já viram, o cabelo comprido são antenas que vão diretamente até Deus.</p>\n<p>Se tiverem a sorte de ir ao norte da Índia, em Srinagar vivem aqueles que usam turbantes coloridos, chamados Sikh. Eles têm outra religião; são hindus, mas misturam hinduísmo e islamismo.</p>\n<p>Eles acreditam nos profetas e trabalham constantemente para alimentar todos os necessitados. Seus templos estão sempre abertos para oferecer café da manhã, almoço e jantar.</p>\n<p>Os Sikh são homens muito grandes fisicamente, robustos, e formam o exército mais temido da Índia. Desde que nascem, nunca cortam o cabelo, por isso usam turbantes. A barba é presa com um elástico e escondida. O cabelo também permanece escondido, mas é longuíssimo e igualmente proibido de cortar, porque o guardam como o maior tesouro para manter a comunicação com o Universo e com Deus.</p>\n<p>Imaginem o que o cabelo representa para eles.</p>\n<p>Por isso, quando virem um hindu com um turbante colorido — porque usam muitas cores bonitas — saibam que, debaixo daquele turbante, existe uma enorme cabeleira de um ou dois metros, dependendo da idade.</p>\n<p>Queria contar-lhes esta história, que é real, porque estivemos na Índia e eu havia omitido transmiti-la.</p>\n<p>Hoje foi o momento.</p>\n<p>Vi uma amiga que me surpreendeu porque apareceu com a cabeça raspada, e está lindíssima. O cabelo dela crescerá ainda mais forte, mas também aproveito para explicar o significado.</p>\n<p>Cada religião é única, e cada religião é muito boa quando bem aplicada. Mas quando é deformada, aí está a perda da pessoa que não caminha no Caminho Reto.</p>\n<p>A Enseñanza sempre lhes dirá: sigam o Caminho Reto,\nsigam o Caminho do Mestre,\nsigam o caminho da vossa consciência,\nsigam o caminho da Luz.</p>\n<p>Nunca cairão, nunca lhes acontecerá nada além daquilo que vocês mesmos escolhem, porque a vida pertence a vocês.</p>\n<p>E vocês escolhem: suas alegrias,\nseus choros,\nsuas dores\ne sua felicidade.</p>\n<p>Espero que tenham gostado desta história que vivi no Nepal.</p>\n<p>Ainda hoje, na aldeia, as mulheres vão buscar lenha na floresta — eles chamam de floresta o lugar das árvores na montanha — e voltam carregando feixes de lenha junto com as crianças.</p>\n<p>Os homens trabalham costurando roupas, fazem calças, jaquetas, bordados e suéteres.</p>\n<p>O trabalho que aqui seria considerado feminino é feito por eles. Já as mulheres cultivam a horta, o campo, plantam batatas e soja, cuidam das crianças, dos animais e ainda buscam lenha para cozinhar.</p>\n<p>Foi uma experiência extraordinária.</p>\n<p>Voltei várias vezes e sempre retorno com essa alegria.</p>\n<p>Existem muitos templos de Buda, muitos templos, e também templos hindus lindíssimos. As duas religiões vivem juntas, lado a lado.</p>\n<p>Quando os tibetanos foram perseguidos no Tibete, tiveram que se exilar.</p>\n<p>Os países mais próximos eram Nepal e Índia.</p>\n<p>E ali vivem os tibetanos, que são budistas, mas convivem em harmonia, porque ambas as religiões se respeitam mutuamente.</p>\n<p>Minhas sementes, Com todo o meu amor,\nvossa Jardinera</p>","frontmatter":{"date":"2026-05-20T00:00:00.000Z","path":"/blog/espiridualidade-amor-e-compaxao","title":"Espiritualidade, amor e compaixão","image":"assets/2026-05-20-sin-texto-lj-2.jpg","language":"pt","previewText":"A Enseñanza sempre lhes dirá: sigam o Caminho Reto, sigam o Caminho do Mestre, sigam o caminho da vossa consciência, sigam o Caminho da Luz."}}},"pageContext":{"mdPath":"/blog/espiridualidade-amor-e-compaxao"}},
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